2004-11-03 01:54 Carlos Freitas
"Portugal no feminino"
O canto dos sereios
O Prof. Crespo de Carvalho (ISCTE) escreveu na sua última Coluna de Trajano, no Semanário Económico, um alerta ao masculinato, sob a forma de confissão dos sucessos intelectuais das mulheres. O rei-homem afinal vai nú.
Sintetizamos os factos referidos pelo Professor:
- Dos 10 melhores alunos que entraram este ano para a Escola de Gestão, 9 são do sexo feminino. E o único do sexo masculino está para lá do meio da escala dos 10 melhores.
- Em Organização e Gestão de Empresas, em Marketing, em Gestão de Redursos Humanos, em Gestão e Engenharia Industrial as melhores notas de entrada este ano são sistematicamente das alunas. Os rapazes só começam a aparecer a partir do meio da tabela. O mesmo acontece nas notas de entrada dos últimos cinco anos.
- O Professor foi analisar as notas que ele próprio deu aos seus alunos dos últimos anos e concluiu que ele deu a maioria das boas notas às alunas.
- Há dez anos "as estrelas" ainda eram do sexo masculino. As boas alunas eram muito menos do que os bons alunos.
- Hoje tudo isto se inverteu em Portugal, nas engenharias, nas letras, nas medicinas, no direito, na arquitectura, na gestão.
O Professor reconhece que há vinte anos as mulheres já amadureciam mais cedo, já eram mais conscientes, supostamente já estudavam mais, já eram emancipadas ou supostamente emancipadas. E pergunta, espantado," o que se terá passado? Haverá por aí algum sociólogo (para o Professor a hipótese de ser uma socióloga nem se põe) que possa explicar o que se passa?"
E lança um aviso à navegação masculina: é possível que a "médio prazo" apareça um batalhão (sic) de mulheres nas empresas, na vida económica e social e até na política. Por outras palavras, os feudos androcráticos estão gravemente ameaçados.
Implicitamente o Professor lança o seu manifesto: homens de Portugal uni-vos! Podeis perder os privilégios, a dominação, a exploração e os abusos sobre as mulheres que duram há séculos.
Depois o Professor Crespo de Carvalho monta um silogismo apocalíptico. Há cada vez menos nascimentos, cada vez menor propensão para o casamento ou enfim a vida familiar torna-se cada vez menos atractiva. Logo, "as coisas só podem tender a melhorar para as mulheres, pelo que, a médio prazo, serão elas que ascenderão aos lugares chave disponíveis na nossa sociedade".
Por outras palavras, a revolução dos batalhões das escravas e dominadas está em marcha. O poder está cair nas mãos do mulherio. Ai dos vencidos.
Parece que para o Professor é natural que sejam "eles" e não "elas" a ascender aos lugares chaves da nossa sociedade. Cabe naturalmente aos 'mais iguais' o monopólio da dominação.
A conclusão da lição do Professor é sublime. Com o monopólio do poder e da decisão pelo masculinato, "multiplicam-se na política, na justiça, na saúde e nas empresas, entre outros, os casos de atestada incapacidade e de ultrapassagem grosseira do princípio de Peter por parte dos homens". "Se as mulheres decidissem mesmo tomar conta disto, abstendo-se da sua maternidade", "pior do que Portugal está, embora possível, parece-me difícil".
Se não fosse difícil piorar a situação de Portugal, é claro para o Professor que o acesso de mulheres ao poder e à decisão a faria piorar. Mesmo que as mulheres se abstivessem da "sua" maternidade. Se não se abstivessem da maternidade, então era a calamidade total.
Por isso, os partidos políticos continuam estoicamente a ser coutada do masculinato que o Professor classifica de seguidor do princípio de Peter, como mostram os posts deste blog sobre a androcracia.
Trajano distinguiu-se como general de inteligência extraordinária. A Coluna de Trajano, do Professor, é também um exemplo de estratégia inteligente. Ao dar a entender que está em marcha imparável a tendência para a ginicracia, as mulheres são subtilmente dissuadidas de exigir aqui e agora o fim de todas as discriminações, bastando esperar pelo amanhã radioso do "médio prazo" para partilharem o poder e da decisão na política e na economia, para porem fim à dominação, à exploração e à violência sobre elas.
Ulisses amarrou-se ao mastro para resistir ao canto mavioso das sereias que queriam retê-lo na sua marcha. Agora são os sereios que cantam, para reter a rota das mulheres que navegam a epopeia da paridade. Há que resistir ao canto e navegar a todo o pano.
Veja também alguns dos posts anteriores.
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