2004-08-30 23:07 Carlos Freitas
Carta aos Bispos: polémica (x)
A "redacção de Morais Sarmento"
sobre a igualdade
O Diário de Notícias (DN) publicou em 24 deste mês um artigo de opinião de João Miguel Tavares a propósito da Carta aos Bispos. O DN sublinhou a importância da opinião com um cartoon de 1/4 de página, caricaturando os Bispos da Igreja Católica, a propósito da Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo.
Salientamos os seguintes excertos (sublinhados nossos):
- "O título da Carta é pomposo e o substantivo 'homem' só ali está para disfarçar, porque o texto dedica-se em exclusivo a explicar para que é que servem as mulheres."
- A carta "já deu origem a editoriais de jornais, a uma redacção de Nuno Morais Sarmento, a entrevistas a bispos e a vários protestos junto do público feminino católico e não só".
- A Carta "não defende o regresso da mulher aos bicos do fogão".
- A argumentação da Carta "utilizada nos entrementes está cheia de armadilhas e é bastante reveladora dos preconceitos que continuam a ensopar as cabecinhas das autoridades eclesiásticas".
- "Talvez fosse boa ideia o conservadoríssimo Vaticano deixar de reflectir sobre o papel da mulher, porque mesmo quando quer escrever direito utiliza as mais totas das linhas. A verdade é que a Igreja não faz ideia de como se relacionar com a mulher e a sua especificidade, tendo-a discriminado desde sempre e continuando a discriminá-la nos dias de hoje. O grande problema (...) é que para a Igreja não existem realmente mulheres: o que existe são mães ou virgens. Se não for uma coisa nem outra, a mulher não se cumpre. Se conseguir ser as duas coisas em simultâneo, será a mulher perfeita - a Virgem Maria".
Sobre o que o articulista do DN designa por "redacção de Nuno Morais Sarmento", ver o artigo publicado recentemente no "Público" sob o título "O desafio da igualdade", com que o Ministro que tutela da Igualdade entrou no debate/polémica que Uns & Outras tem vindo a relatar em diversos posts deste blog.
Veja também posts anteriores de Uns & Outras sobre esta polémica.
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2004-08-29 17:30 Carlos Freitas
Os exemplos dos Partidos
Nenhuma mulher entre os 3 candidatos:
nada de igualdade, zero de paridade
Fotos do DN de José C. Carvalho, Paulo Spranger e Rodrigo Cabrita
O monopólio do masculinato continua, sete anos após os Constituintes terem atribuído (no artº 9º da Constituição) o estatuto de uma das tarefas fundamentais do Estado à promoção da igualdade entre homens e mulheres.
Nem uma única mulher entre os candidatos. Continua a abusiva discriminação das mulheres no acesso ao poder.
O conceito de igualdade e de paridade dos políticos portugueses é só para os discursos. " Mostra-me o que fazes, dir-te-ei quem és".
Veja também alguns dos posts anteriores.
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2004-08-20 19:34 Carlos Freitas
Carta aos Bispos: polémica (ix)
Uma ex-governante entra no debate
Maria do Céu Cunha Rego saiu das funções Secretária de Estado para a Igualdade, há cerca de dois anos. Embora não se referindo expressamente sobre a Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo, acaba agora de escrever no "Público" um artigo sobre "Igualdade de homens e mulheres". A coincidência no tempo e no tema não é certamente mero acaso.
Há duas décadas, um Presidente da CIP exclamou, perante as sucessivas intervenções de ex-ministros das Finanças com análises e receitas para as curas da crise económica de então, que "é cada vez mais fácil entender os ex-ministros e cada vez mais difícil compreender os ministros". Todos os ex-ministros falavam como se não tivessem sido responsáveis pelas políticas cujos resultados criticam, depois de terem deixado as funções governativas.
Também é extremamente fácil concordar com as posições agora expostas pela ex-Secretária de Estado para a Igualdade. Salientamos algumas (sublinhados nossos):
- "persistência dos códigos tradicionais de masculinidade e feminilidade baseados em 'papéis sociais' desiguais por causa do sexo e assumidos como inevitabilidade 'natural'."
- "a recente polémica sobre as 'quotas para homens nos cursos de medicina' (...) ajudou a concluir que não é aceitável limitar a vida profissional das mulheres por poderem ser mães ou porque, em função do sexo, teriam obrigações domésticas e familiares não exigíveis aos homens".
- "parece-me positivo que este debate (das quotas em medicina) tenha dado visibilidade:
- (...) à importância da participação das mulheres no poder político, como provou a intervenção da ex-ministra das Finanças;
- à indiferença com que médicos, habituados a combater a natureza, se demitem de adequar a organização do trabalho ao facto de serem as mulheres quem, por força da natureza, gera e dá à luz;
- à falta de objectividade com que médicos, habituados ao rigor científico, confundem mulheres com mães e ignoram a taxa de natalidade de 11 nascimentos por 1000 habitantes;
- (...) à urgência da abordagem destes temas na educação e na formação para a cidadania
- "como nos diz o Conselho da Europa, é a igualdade de resultados de homens e mulheres em todas as dimensões do desenvolvimento humano que constitui critério essencial da democracia."
Ao ler o artigo da ex-Secretária de Estado para a Igualdade, muita gente se interroga que estratégias, políticas e resultados resultaram afinal da sua acção governativa, ocorrida anos depois de a Constituição ter considerado que a promoção da igualdade entre homens e mulheres é uma da tarefas fundamentais do Estado.
Como influenciou ela as políticas, programas e projectos dos outros ministros, no respeito pelo princípio do mainstreaming (avaliação a priori e a posteriori do impacto do gasto de fundos públicos na promoção da igualdade entre homens e mulheres)? Como influenciou a concepção do orçamento do Estado com base nos géneros? E a concepção das estatísticas sobre a desigualdade e a violência e a sua prevenção? E que mecanismos para a igualdade/paridade criou? Que metas e objectivos? Com que resultados contribuiu para o carácter essencial da democracia, no conceito do Conselho da Europa que cita?
Veja também alguns dos posts anteriores.
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2004-08-16 18:58 Carlos Freitas
Carta aos Bispos: polémica (viii)
O Papa reforça a Carta aos Bispos
na peregrinação a Lourdes
Cerca de 300 mil pessoas assistiram à missa do Papa João Paulo II em Lourdes, duas semanas depois da divulgação da Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo e do início da polémica logo levantada.
O Papa retomou, sob outras palavras, temas explícitos ou implícitos da Carta aos Bispos. Salientamos (sublinhados nossos):
- falou da "missão particular que espera a mulher nos tempos actuais, tentados pelo secularismo e o materialismo: ser na sociedade de hoje testemunho daqueles valores essenciais que se vêem somente com os olhos do coração".
- proclamou que "a vós, mulheres, cabe a tarefa de ser sentinelas do invisível".
- apelou às mulheres: "fazei tudo quanto esteja na vossa mão, para que a vida, toda a vida, seja respeitada desde a concepção até ao seu fim natural; a vida é um dom natural do qual ninguém se pode proclamar dono".
A mensagem é clara. A Igreja não muda os seus princípios básicos.
Veja também outros posts anteriores e posteriores
de Uns & Outras, sobre a polémica da Carta.
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2004-08-11 22:50 Carlos Freitas
Carta aos Bispos: polémica (vii)
O Papa e as mulheres
Opinião de A. Costa Pinto no DN
Com o ante-texto "A obsessão com o 'sexo' no discurso oficial da Igreja esconde a perda no terreno político", o DN publica hoje um artigo de António Costa Pinto cujos principais excertos sumarizamos (sublinhados nossos):
- "A maioria das religiões contemporâneas é pouco simpática para com as mulheres. O catolicismo não é das piores, mas o Vaticano continua a brindar o outro género com alguns limites, não vão elas pensar que a igualdade em algumas áreas significa autonomia integral."
- A Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo reconhece e defende as grandes conquistas e reivindicações igualitaristas de género que marcaram o mundo desenvolvido nos últimos cem anos. Estamos já longe das encíclicas Rerum Novarum ou Casti Connubii (1930) que ainda confinavam as mulheres ao seu destino 'biológico' condicionadas pelas leis da natureza a serem apenas mães e domésticas.
- Nessa altura a Igreja Católica desesperava perante a integração rápida das mulheres no mercado de trabalho, apelando sem eco ao regresso ao lar. Em países como a Alemanha e a França as mulheres asseguravam nos anos 30 mais de 30% da população activa. (O inferno da Guerra Mundial estava em gestação... - nota de Uns & Outras)
- A Carta:
- recupera as reivindicações fundamentais da igualdade política e social;
- apoia a flexibilização dos horários de trabalho;
- apela a que "não se feche a mulher num destino puramente biológico";
- está contra o "feminismo" particularmente aquele que defende uma "rivalidade radical entre sexos" ou o que pretende "apagar a diferença entre os sexos".
- A estranha prioridade dada ao combate ao "feminismo radical" mostra mais uma vez que os porta-vozes oficiais da Igreja Católica estão no geral em contracorrente na agenda dos direitos das mulheres, como estiveram sempre ao longo de todo o século XX, no mundo desenvolvido: nos direitos políticos, no divórcio, na contracepção ou na questão do aborto.
- A Igreja Católica tem um razoável pluralismo interno e grande diversidade de agendas nacionais. As suas posições perante a democracia política e os direitos humanos são hoje património adquirido, mas na agenda da igualdade raramente foi o caso, apesar dos protestos que esta carta tem sofrido em muitos meios da Igreja.
- O exemplo do divórcio é elucidativo. A Igreja Católica tentou impedir a legalização do divórcio nos últimos cem anos. O que hoje parece um direito banal para os portugueses, só em Novembro deste ano o será para os chilenos, graças a uma Igreja Católica local com mais sorte.
- A generalização dos contraceptivos nos anos 70, talvez a maior revolução privada para as mulheres fugirem "ao seu destino biológico" era de difícil ilegalização pelos países desenvolvidos. Paulo VI não se esqueceu de interditar a famosa pílula em 1968, na encíclica Humanae Vitae.
- Perdendo fiéis e vocações no mundo desenvolvido, a Igreja Católica vai perdendo as mulheres, que eram (e são ainda no Terceiro Mundo) um dos seus mais disciplinados corpos na sociedade civil.
- João Paulo II bloqueou o acesso à ordenação as mulheres mais devotas, discussão congelada desde 1994, mantendo assim uma quase integral dominação masculina no interior da Igreja.
- Seria um exagero dizer que a Igreja Católica está em perda de influência no mundo ocidental e desenvolvido. Mas as sondagens divulgadas pela Conferência Episcopal Alemã mostram uma perda acentuada da confiança dos alemães na Igreja. Mas não lhe faria mal que uma parte da desconfiança se devesse às mulheres. A Igreja bem merecia o resultado.
Veja outros posts de Uns & Outras sobre a polémica da Carta.
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2004-08-07 23:34 Carlos Freitas
Carta aos Bispos: polémica (vi)
DN entrevista Bispo de Aveiro
A jornalista Fernanda Câncio entrevistou o Bispo de Aveiro, que se alonga por página e meia do Diário de Notícias de 07-08-2004, uma semana depois da publicação da Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo.
O título da entrevista reproduz uma afirmação do entrevistado: "A carta põe a mulher no lugar próprio".
Ao longo de 24 perguntas cujo conteúdo e respostas dão um contributo importante para a análise da Carta aos Bispos e da polémica que à volta dela foi publicada, tem-se uma perspectiva de um Bispo da Igreja portuguesa. D. António Marcelino é vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesas e vogal da Pastoral da Família.
Dada a extensão da entrevista, Uns & Outras somente apresenta alguns excertos, incluindo as "frases" sublinhadas pela entrevistadora (sublinhados nossos):
- "Sou marcado na minha infância por, na minha aldeia, ter visto um homem a espancar uma mulher na rua".
- "Condeno absolutamente a violência doméstica. Nada a justifica, nada!"
- "Eu sou feminista, no sentido em que sempre defendi a mulher"
- "Quando se fala no discurso feminista pode-se entender por isso a expressão radicalizada da queima de 'soutiens'."
- "A Ana Vicente (ver o nosso post sbre o artigo dela no Público), do movimento Nós Somos Igreja, leu a carta com o preconceito que tem em relação a estas coisas"
- "Ninguém existe para si próprio. A mulher é um Outro Eu na Humanidade... O homem e a mulher são um só".
- "Deus não é masculino nem feminino. É Deus, não tem sexo".
- "Deus é representado como homem porque 'aos artistas não se impõem leis'."
- "A carta não diz que o trabalho doméstico é o principal dever da mulher. Mas gostei muito da maneira como foi posto o problema. Claro que já há homens que gozam licença de maternidade e eu acho bem. É habitual nas minhas prelecções defender que os rapazes que se casam agora têm de encarar isso. Mas sinto que a mulher tem mais capacidade para isso... Já viu como os homens pegam nas crianças?"
- "A carta nada diz sobre as obrigações familiares dos homens (porque) a carta não foi feita para isso. E é um hino de exaltação à mulher extraordinário".
- "Vê-se em toda a História que as mulheres são vítimas das alterações sociais, muito mais que os homens. (...) As mulheres não são melhores que os homens. Têm determinado tipo de capacidades, são mais humanizadas. São mais compassivas, têm mais capacidade em sintonizar-se com o outro, para com ele caminhar. Isso é uma grande riqueza."
Perante esta posição do Bispo de Aveiro sobre as capacidades da mulher, Fernanda Câncio diz-lhe: "a ser assim, ainda se compreende pior que as mulheres não possam ter lugares mais predominantes na Igreja. Porque se a Igreja é amor, se tem antes de mais de ser para outro, se os valores essenciais das mulheres são esses... Não lhe faz sentido?"
Ao que o ilustre entrevistado responde: "A pergunta faz sentido. A resposta é que seria demasiado longa... O amor não se exprime nisto e não naquilo. O amor exprime-se em tudo."
Veja também outros posts de Uns & Outras sobre a polémica da Carta.
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Carta aos Bispos: polémica (i)
Visão de o "Público" (I)
Visão da jornalista Ana Cristina Pereira
Título: Vaticano ataca "feminismo radical" e reitera desigualdade de géneros
Ante-texto: Carta doutrinal diz que "a rivalidade entre sexos" tem os seus efeitos "mais imediatos e letais na estrutura familiar" tradicional.
Principais excertos (sublinhados nossos):
- O Vaticano voltou a evocar o "determinismo biológico" para fazer a defesa das diferenças de género e atacar as feministas.
- O documento que pretende rever a posição da Igreja em matéria de géneros condena o "feminismo radical".
- Reconhece que as mulheres:
- devem ser respeitadas
- e auferir de direitos iguais no emprego.
- Mas sustenta que as diferenças entre os sexos devem ser exaltadas.
- O Vaticano acusa o "feminismo radical" de ser culpado do facto de as mulheres acreditarem que, para serem elas próprias, têm de ser "antagonistas" dos homens. E tal deriva para a "rivalidade entre sexos" tem os seus efeitos "mais imediatos e letais na estrutura familiar" tradicional.
- No entender do Vaticano, ao negar qualquer supremacia de género, o movimento feminista tende a anular "a diferença corporal chamada sexo".
- Esta antropologia que pretendia favorecer a igualdade para a mulher, libertando-a de todo o determinismo biológico,
- inspirou ideologias que põem em causa a família natural composta por um pai e uma mãe,
- equipara a homossexualidade à heterossexualidade
- e advoga um novo modelo de sexualidade polimorfa.
- O Papa tem repetidamente repudiado o avanço de alguns países para a legalização de casamentos entre homosexuais.
- A carta insiste na importância das diferenças entre homem e mulher. E reconhece que a mulher não é "uma cópia do homem" na capacidade que tem de dar vida.
- O Vaticano considera que:
- a maternidade "estrutura profundamente a personalidade feminina",
- mas que tal "não autoriza em absoluto considerar a mulher exclusivamente sob o aspecto da procriação física",
- a "vocação cristã para a virgindade" derruba qualquer intenção de reduzir a mulher ao papel de mãe.
- O Vaticano:
- faz a defesa acérrima da família tradicional,
- admite o direito da mulher ao emprego,
- exige aos governos que equilibrem as suas legislações para que a mulher "possa cumprir a sua missão dentro da família".
- A carta:
- considera que "há que encontrar formas de a mulher poder trabalhar com horários adequados que não obriguem a escolher entre alternativas que podem prejudicar a sua vida familiar ou sofrer uma situação de tensão que estrague o seu equilíbrio pessoal ou a harmonia familiar",
- apela à valorização das mulheres que escolhem dedicar-se à família e à casa a tempo inteiro, para que não sejam "estigmatizadas socialmente e penalizadas economicamente".
A jornalista Ana C. Pereira lembra que "ainda no ano passado, o Papa propôs que se pagasse um salário às donas de casa".
E fez auscultação de reacções à Carta aos Bispos. Asim:
- transcreve a reacção da Rede de Organizações Feministas (espanholas) contra a Violência de Género: 1) a carta faz a apologia da desigualdade; 2) é inconstitucional.
- informa que a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) considera sobre a posição reiterada pelo Vaticano , na Carta aos Bispos:
- "prejudica a paz", no sentido em que promove "atitudes violentas" fundamentadas em princípios de desigualdade
- "não é por as mulheres terem útero que têm de ficar sujeitas a uma determinada ordem social";
- a igualdade entre sexos "não é só uma luta feminista": envolve movimentos diversos, inclusive de "gays" e "lésbicas";
- o direito à felicidade e à realização pessoal é uma conquista do final do século XX, início do século XXI;
- a Igreja Católica, ao recusar-se a "acompanhar o sinal dos tempos, só perde";
- a UMAR alega-se "curiosa" para saber como reagirão os católicos que se têm empenhado na defesa da igualdade de oportunidades entre géneros.
Veja também outros posts de Uns & Outras sobre a Carta.
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Carta aos Bispos: polémica (v)
Posição de El País:
As feministas acusam a Igreja
de 'incentivar a violência' machista
Logo no dia seguinte à publicação da Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo, o jornal El País (tendência socialista) publicou um artigo baseado na Agência EFE, sob o título acima indicado.
Excertos das principais afirmações do artigo (sublinhados nossos):
- Baseadas nas declarações da porta-voz da Red de Organizaciones Feministas contra a Violencia de Género (rede estatal criada em em 2002; ver também a página La Red desse site, com a lista de organizações que a integram e as condições mínimas de adesão):
- a condenação, pelo Vaticano, do feminismo radical e da ideologia do género, faz a apologia da desigualdade e defende princípios integristas e inconstitucionais, por a Red considerar que a Carta, ao admitir que o feminismo não tem em conta o sexo das pessoas, conduziria a que cada pessoa fosse livre de escolher o seu próprio género: heterossexualidade, homossexualidade, lesbianismo ou transsexualidade;
- a Carta incentiva a violência contra as mulheres. No entender da Red, o Ministro do Interiornão, além de analisar o que é dito em certos púlpitos de outras religiões sobre o terrorismo, devia também de esudar "como se incentiva pela igreja Católica a violência sobre as mulheres".
- a Carta é "mais um ataque contra os princípios feministas", por parte do Vaticano.
- para a Igreja, o feminismo radical dos últimos anos é culpado de a mulher crer que, para ser ela mesma, tem que converter-se em antagonista do homem, "chegando a uma rivalidade radical entre sexos, na qual a identidade e o papel de um são assumidos com desvantagem para o outro.
- Baseadas nas declarações do Colectivo de Mulheres na Igreja Católica da Catalunha:
- o Colectivo acusou o Vaticano, num comunicado, de liderar "o patriarcado mais recalcitrante" e de "ignorar os verdadeiros problemas das mulheres de todo o mundo";
- acusou-o também de "pretender ordenar e dirigir a vida das mulheres, tanto a nível público como privado e íntimo";
- considera que "o feminismo radical não pretende assimilar a mulher ao homem. Talvez o Vaticano não se tenha apercebido de que há muitos e diversos feminismos e que todos são radicais na aposta pela mulher frente ao patriarcado".
Veja também outros posts de Uns & Outras sobre a Carta.
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Carta aos Bispos: polémica (iii)
"Católica e feminista, graças a Deus"
Posição do "Nós Somos Igreja"
Ana Vicente, com importante obra publicada sobre a igualdade de géneros e membro do Movimento Internacional "Nós Somos Igreja", foi a primeira católica a satisfazer a "curiosidade" que Maria José de Magalhães da UMAR manifestou ao Público (ver post abaixo)sobre como reagiriam, à Carta aos Bispos, os católicos que se têm empenhado na defesa da igualdade de oportunidades entre géneros.
Para melhor se entender o artigo de Ana Vicente, no Público de 04-08-2004, recomendamos que se leia, pelo menos, a página de Apresentação daquele Movimento.
Principais excertos do artigo (sublinhados nossos):
- O que poderá estar por de trás ou pela frente desta curiosa Carta aos Bispos?
- Porquê uma carta 'aos bispos' - todos homens, todos celibatários, todos não escolhidos pela comunidade dos fiéis, mulheres e homens, mas antes escolhidos 'de cima' de acordo com critérios desconhecidos? Onde está a sua autoridade?
- O que a Carta revela:
- é uma série de não-ditos e uma profunda ignorância do quotidiano das pessoas concretas que habitam a Terra.
- que os homens do Vaticano, isolados num mundo artificialmente masculino, onde as crianças não podem nascer nem florescer, não conversam com as pessoas que os possam elucidar acerca do que eles apelidam de 'feminismo radical'. Nenhuma feminista se considera 'antagonista' dos homens mas antes do machismo.
- que os homens do Vaticano não entendem que aquilo que as feministas desejam não é, sobretudo, ser 'iguais' aos homens - passaria na cabeça de alguma mulher, assumindo-se ou não como feminista, querer ser igual ao cardeal Ratzinguer (autor da Carta aos Bispos aprovada pelo Papa). Nem parecida! Que pesadelo!
- Qualquer feminista que se preze sabe que o paradigma a imitar não é aquele que garante um mundo destroçado pela guerra, pela fome, pela destruição ambiental, onde o poder económico e político se encontra a 90% em mãos masculinas: "a rivalidade entre sexos" só existe na cabeça destes senhores.
- O que as temíveis feministas procuram (como também os homens feministas, e há muitos graças a Deus) é aquilo sobejamente evidente, porque possível e desejável:
- um mundo onde mulheres e homens possam partilhar o sagrado, o amor, o saber, a sexualidade, o trabalho remunerado ou gratuito, a família, a procriação, entre outras esferas de realização, sem marca de hierarquia de género;
- desejam não estar sós nas responsabilidades familiares, como tem sido o modelo constante em todas as culturas, mas partilharem essa responsabilidade com o cônjuge e pai dos seus filhos.
- A difícil e desejável conciliação familiar não pode ser entendida por aqueles que escolheram o celibato como forma de vida.
- Esta Carta aos Bispos:
- também consiste num grito mal disfarçado de desespero: perante a afirmação das mulheres, perante o facto de as mulheres se encontrarem num processo de oucupação, que não de usurpação, dos espaços físicos e psíquicos que lhes pertencem porque são pessoas. Sentem-se ameaçados, eles saberão porquê, pelos nossos talentos e pelas nossas realizações.
- revela um temor doentio face à homossexualidade, quando a fé cristã nos ensina que Deus ama as lésbicas e os homossexuais, como os heterossexuais, e que estas pessoas têm que ser respeitadas. Ainda por cima sabe-se, por estudos feitos na Alemanha e nos EUA, que entre os sacerdotes existe elevada percentagem de homens com esta orientação sexual, superior à que existe na vida laical (o que não implica que não sejam castos nas suas vidas) pelo que o discurso homofóbico se torna ainda mais estranho.
- indica que alguns homens têm inveja das nossas capacidades: de reprodução, de trabalho constante e variado ao longo de todas as horas do dia e quantas da noite, de estudar, de pensar e decirir, de cuidar dos outros e de si próprias, de sermos santas e de viver a espiritualidade no quotidiano.
- Graças a Deus, é caso de reiterar com toda a energia que as mulheres não são imitações dos homens.
- Pobres homens estes (autores e destinatários da Carta e outros) que se couraçaram contra o sopro do Espírito, que não entendem a bondade da criação, infinitamente variada, por parte de Deus. Parece que as suas vidas são regidas pelo medo, medo de não conseguirem impor-se às consciências das cristãs e dos cristãos que constituem a Igreja. Merecem a nossa comiseração, mas não a nossa consideração.
Veja também outros posts de Uns & Outras sobre a polémica da Carta.
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Carta aos Bispos: polémica (ii)
Posição de o Público (II)
Editorial do Director
Dois dias após a divulgação da Carta aos Bispos, feita pelo Vaticano em 31-07-2004, o Director José Manuel Fernandes toma a posição constante do Editorial.
Título: A Coerência do Papa.
Ante-texto: João Paulo II faz a defesa da diferença da mulher e da feminilidade na carta que acaba de dirigir aos bispos católicos.
Principais afirmações (sublinhados nossos):
- segundo confirma estudo recente numa universidade americana, "existem formas muito diferentes de encarar o sexo pelos rapazes e pelas raparigas, formas essas determinadas pela evolução do Homo Sapiens e pelas condições em que as comunidades viveram durante milénios, formas que podem variar de cultura para cultura, mas que têm muitos traços comuns".
- Estas diferenças tenderam a ser esbatidas pelo feminismo original que proclamava a total igualdade dos sexos e dos géneros.
- As correntes mais modernas do feminismo perceberam que esta doutrina se transformou muitas vezes numa armadilha para as mulheres:
- A liberalização das relações acabou demasiadas vezes em divórcios dolorosos e mulheres sozinhas, depois de os homens as trocarem por outras mais novas.
- Mulheres naturalmente mais infelizes e não apenas porque o machismo se revelou mais difícil de derrotar do que imaginavam, mas porque aquilo que alguns já chamaram o lado "predador" que existe no homem se sentiu mais livre no novo ambiente da "igualdade".
- É a esta situação que, em linguagem de documento teológico, em boa parte procura responder a Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo.
- Nesta Carta:
- há uma clara coerência com a doutrina do Papa nesta matéria;
- e também a coragem de afirmar o que nem sempre vai com o chamado "espírito do tempo".
- Lendo o documento na íntegra, encontramos sobretudo o princípio de que "o homem é uma pessoa, em igual medida o homem e a mulher", mas que a sua "igual dignidade realiza-se como complementaridade física, psicológica e ontológica, dando lugar a uma 'unidualidade' relacional". Ou "a antropologia bíblica convida a enfrentar com uma titude relacional, não concorrencial nem de desforra, os problemas que, a nível público e privado, envolvem diferença de sexo".
- o Vaticano defende que a sexualidade "é uma componente fundamental da personalidade, uma sua maneira de ser, de se manifestar, de comunicar com os outros, de sentir, exprimir e viver o amor humano".
- João Paulo II sempre se manteve firme na defesa da família heterossexual e em considerá-la o núcleo base da sociedade, o que não significa qualquer subalternização da mulher.
Consideramos muito interessante a comparação desta tomada de posição do Director do Público com o artigo da sua jornalista sobre a Carta aos Bispos.
Veja também outros posts de Uns & Outras sobre a Carta.E comente-os com a sua opinião.
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Carta aos Bispos: polémica (iv)
"Católica e feminista,
com a graça de Deus, eu também!"
Associação Mulheres em Acção
Alexandra Teté, membro da Associação Mulheres em Acção, foi a segunda católica a satisfazer a "curiosidade" que Maria José de Magalhães da UMAR manifestou no Público (ver post abaixo)sobre como reagiriam, à Carta aos Bispos, os católicos que se têm empenhado na defesa da igualdade de oportunidades entre géneros.
Para melhor se entender o artigo de Alexandra Teté, no Público de 06-08-2004, recomendamos que se leia, pelo menos, a página dos Princípios daquela Associação, bem como o artigo de Ana Vicente (ver post acima).
Principais excertos do artigo de Alexandra Teté (sublinhados nossos):
- Apetece perguntar: o que tem a ver o artigo publicado pela senhora Ana Vicente no Público de 4 de Agosto, a propósito da Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo, com "a mensagem evangélica, com a Boa Nova, com o desafio de Jesus: ama o teu próximo como a ti mesmo" e, até mais, como Ele nos amou?
- Porquê
- esse rancor insultuoso contra os "pobres homens", "todos celibatários, todos não escolhidos pela comunidade dos fiéis"?
- esse ressentimento contra o sacramento da Ordem e contra o ministério sacerdotal, contra o celibato apostólico, contra a escolha de Deus?
- essa desconfiança na assistência prometida por Jesus aos Apóstolos e aos seus sucessores?
- essa ignorância do mistério da Igreja e da sua natureza sobrenatural?
- Ana Vicente não deve ter lido bem a Carta:
- o que a Carta visa é esse "mundo onde mulheres e homens possam partilhar o sagrado, o amor, o saber, a sexualidade, o trabalho remunerado ou gratuito, a família, a procriação, entre outras esferas de realização", sem marcas de hierarquia de género", sim, porque mulheres e homens têm igual dignidade e direitos, mas também sem desprezo pela sua riqueza específica, pela complementaridade e reciprocidade sexual, por essa "bondade da criação".
- Então, qual é o problema e o medo de Ana Vicente? Porquê o seu endurecimento e o seu azedume?
- Quanto ao suposto "discurso homofóbico" que preocupa Ana Vicente, a fé cristã ensina realmente que Deus ama as lésbicas e os homossexuais, como aos heterossexuais, como a todas as pessoas, como a todos os pecadores, e que todas essas pessoas devem ser respeitadas. Mas não aprova nem quer o seu pecado, que as destrói. Deus quer "desesperadamente" salvar a todos, mas pede o seu arrependimento e a sua conversão, convida à santidade.
- Gostaria de dizer, com amizade e também consideração, a Ana Vicente, que
- também eu sou católica e feminista e que partilho da sua convicção quanto às qualidades das mulheres e quanto ao medo que alguns homens têm de nós.
- Mas não é preciso ser o Cardeal Ratzinger para perceber que o "feminismo radical" existe e que é quase tão mau como o machismo.
- E na minha casa, graças a Deus, "nasceram e floresceram crianças".
Veja também outros posts de Uns & Outras sobre a polémica da Carta.
E comente-os com a sua opinião.
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2004-08-06 19:19 Carlos Freitas
Carta aos Bispos da Igreja Católica
sobre a Colaboração do Homem
e da Mulher na Igreja e no Mundo
Em 31 de Julho passado, o Vaticano divulgou a Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo.
Antes de tomar posição, é conveniente ler-se este documento que vai ter influência (acordo ou desacordo) sobre centenas de milhões de pessoas, em todo o Mundo. Uns & Outras sugere a leitura integral ou parcial usando o link acima. No mínimo, recomenda a leitura da "Introdução" e de "O Problema", ou seja das duas primeiras partes do documento que a seguir se transcrevem na versão em Português (sublinhados nossos):
INTRODUÇÃO
1. Perita em humanidade, a Igreja está sempre interessada por tudo o que diz respeito ao homem e à mulher. Nestes últimos tempos, tem-se reflectido muito sobre a dignidade da mulher, sobre os seus direitos e deveres nos diversos âmbitos da comunidade civil e eclesial. Havendo contribuído para o aprofundamento desta temática fundamental, sobretudo com o ensinamento de João Paulo II, a Igreja sente-se hoje interpelada por algumas correntes de pensamento, cujas teses muitas vezes não coincidem com as finalidades genuínas da promoção da mulher.
O presente documento, depois de uma breve apresentação e apreciação crítica de certas concepções antropológicas hodiernas, entende propor algumas reflexões inspiradas pelos dados doutrinais da antropologia bíblica — aliás indispensáveis para a salvaguarda da identidade da pessoa humana — sobre alguns pressupostos em ordem a uma recta compreensão da colaboração activa do homem e da mulher na Igreja e no mundo, a partir dessa sua mesma diferença. Pretendem estas reflexões, ao mesmo tempo, propor-se como ponto de partida para um caminho de aprofundamento no seio da Igreja e para instaurar um diálogo com todos os homens e mulheres de boa vontade, na busca sincera da verdade e no esforço comum de promover relações cada vez mais autênticas.
I. O PROBLEMA
2. Nestes últimos anos têm-se delineado novas tendências na abordagem do tema da mulher.
Uma primeira tendência sublinha fortemente a condição de subordinação da mulher, procurando criar uma atitude de contestação. A mulher, para ser ela mesma, apresenta-se como antagónica do homem. Aos abusos de poder, responde com uma estratégia de busca do poder. Um tal processo leva a uma rivalidade entre os sexos, onde a identidade e o papel de um são assumidos em prejuízo do outro, com a consequência de introduzir na antropologia uma perniciosa confusão, que tem o seu revés mais imediato e nefasto na estrutura da família.
Uma segunda tendência emerge no sulco da primeira. Para evitar qualquer supremacia de um ou de outro sexo, tende-se a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples efeitos de um condicionamento histórico-cultural. Neste nivelamento, a diferença corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão estritamente cultural, chamada género, é sublinhada ao máximo e considerada primária. O obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos é grávido de enormes consequências a diversos níveis. Uma tal antropologia, que entendia favorecer perspectivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o determinismo biológico, acabou de facto por inspirar ideologias que promovem, por exemplo, o questionamento da família, por sua índole natural bi-parental, ou seja, composta de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade, um novo modelo de sexualidade polimórfica.
3. A raiz imediata da sobredita tendência coloca-se no contexto da questão da mulher, mas a sua motivação mais profunda deve procurar-se na tentativa da pessoa humana de libertar-se dos próprios condicionamentos biológicos. De acordo com tal perspectiva antropológica, a natureza humana não teria em si mesma características que se imporiam de forma absoluta: cada pessoa poderia e deveria modelar-se a seu gosto, uma vez que estaria livre de toda a predeterminação ligada à sua constituição essencial.
Muitas são as consequências de uma tal perspectiva. Antes de mais, consolida-se a ideia de que a libertação da mulher comporta uma crítica à Sagrada Escritura, que transmitiria uma concepção patriarcal de Deus, alimentada por uma cultura essencialmente machista. Em segundo lugar, semelhante tendência consideraria sem importância e sem influência o facto de o Filho de Deus ter assumido a natureza humana na sua forma masculina.
4. Perante tais correntes de pensamento, a Igreja, iluminada pela fé em Jesus Cristo, fala ao invés de colaboração activa, precisamente no reconhecimento da própria diferença entre homem e mulher.
Para melhor compreender o fundamento, o sentido e as consequências desta resposta, convém voltar, ainda que brevemente, à Sagrada Escritura, que é rica também de sabedoria humana, e onde esta resposta se manifestou progressivamente, graças à intervenção de Deus em favor da humanidade.
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